Diferenciais culturais brasileiros
Andre Ribeiro • August 4, 2023
O Brasil é um país rico em diversidade cultural, fruto da mistura de povos indígenas, europeus, africanos, asiáticos e outros grupos que formaram a sua população. Entre os diversos aspectos culturais que compõem a identidade brasileira, destaca-se a influência afrodescendente, que se manifesta na música, na religião, na culinária, na arte, na arquitetura, na literatura e em muitas outras formas de expressão.
Cada vez mais, as pessoas viajam buscando conexões e experiências autênticas nos lugares. Também levam em consideração os impactos sócio ambientais na hora de escolher seu destino. E a cultura é um dos principais motivadores que levam turistas a diversas localidades no Brasil e no mundo. Em especial, destinos que não são famosos pelos atrativos naturais e sim pelas manifestações culturais que acontecem na região. No Brasil, grande parte dessas manifestações culturais tem relação com a população negra, suas raízes e ancestralidade africana.
O afroturismo é uma modalidade de turismo que valoriza e promove a cultura afro-brasileira, buscando resgatar a história e as tradições ancestrais africanas que contribuíram para a formação do Brasil. O afroturismo também visa combater o racismo e a discriminação, fortalecendo a autoestima e a identidade da população negra, além de promover geração e renda e fortalecer a diversidade no turismo.
Existem vários destinos no Brasil que oferecem experiências de afroturismo, como por exemplo:
- Salvador: A capital da Bahia é considerada a cidade mais africana fora da África, pois abriga a maior população negra do país e preserva um rico patrimônio histórico e cultural de origem africana. Em Salvador, é possível visitar museus, igrejas, terreiros de candomblé, mercados, monumentos e outros locais que contam a história da resistência e da luta dos negros no Brasil. Além disso, é possível apreciar a música, a dança, a gastronomia e a arte afro-baiana, que são expressões vivas da cultura negra.

- Rio de Janeiro: A cidade maravilhosa também tem uma forte presença afrodescendente, que se reflete em sua cultura e em sua paisagem. No Rio de Janeiro, é possível conhecer o Quilombo da Pedra do Sal, um dos primeiros redutos de escravos fugidos no Brasil e berço do samba carioca; o Museu do Samba, que conta a história desse ritmo musical de origem africana; o Instituto Pretos Novos, que preserva os restos mortais de milhares de escravos africanos que morreram no porto do Rio; o Cais do Valongo, que foi o maior porto de entrada de escravos nas Américas; e o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que reúne vários pontos de interesse relacionados à cultura afro-brasileira.
- São Paulo: A maior metrópole do Brasil também tem uma rica diversidade cultural afrodescendente, que pode ser explorada em diversos espaços. Em São Paulo, é possível visitar o Museu Afro Brasil, que possui um acervo de mais de 6 mil obras de arte e objetos relacionados à cultura negra; o Centro Cultural Afro-Brasileiro Oduduwa, que promove atividades educativas e culturais sobre as tradições africanas; o Sesc 24 de Maio, que abriga exposições e eventos sobre a cultura afro-brasileira; o Centro Cultural da Penha, que oferece oficinas e espetáculos de música e dança afro-brasileira; e o Museu da Abolição da Escravatura no Brasil (MABE), que resgata a memória da luta pela liberdade dos negros no país.
Esses são apenas alguns exemplos de como o afroturismo pode proporcionar uma viagem enriquecedora e consciente pela cultura afro-brasileira. O afroturismo é uma forma de valorizar e reconhecer a contribuição dos africanos e seus descendentes para a formação do Brasil, além de combater o preconceito e promover a inclusão social.

Na Feira Preta Festival Celebra Viva Pequena África, a Diaspora.Black , em parceria com o BNDES, promoveu dois roteiros novos pela Pequena África: Instituto Pretos Novos e Casarão Cultural João de Alabá. A Pequena África é um reconhecimento do legado africano e afrodescendente na formação do Rio de Janeiro. Quem caminha por esse território encontra múltiplas camadas de memória que podem ser vividas de formas completamente diferentes e, durante o festival, conduzimos os participantes por dois desses caminhos: o da história e da arqueologia, com o Instituto Pretos Novos , e o da espiritualidade e da tradição religiosa, com o Casarão Cultural João de Alabá .

A Diaspora.Black esteve no Web Summit Rio 2026, dentro da Startup Island do estande brasileiro, a convite da EmbraturLAB em parceria com o Itaipu Parquetec. A iniciativa reuniu 24 startups selecionadas para apresentar soluções em inteligência artificial, turismo inteligente, sustentabilidade e economia criativa, reforçando o posicionamento do Brasil como um polo de inovação aplicada ao turismo. Nossa participação marcou a presença de uma startup com dez anos de atuação, com soluções estruturadas para empresas que querem incorporar o afroturismo à sua oferta de valor.

Todo mês de agosto, Cachoeira desacelera. Quem chega à cidade nesse período entende o motivo. A cidade do Recôncavo Baiano, com seus casarões coloniais e ladeiras de pedra, se torna cenário de uma das celebrações mais importantes da cultura afro-brasileira. A Festa da Boa Morte não cabe em nenhuma categoria comum de viagem corporativa. Ela convida a participar de uma história construída e preservada por mulheres negras há mais de dois séculos.

O Brasil acaba de ganhar mais um reconhecimento no cenário global do afroturismo. Nosso cofundador e diretor de operações, Antonio Pita, foi reconhecido pela organização Most Influential People of African Descent (MIPAD) como uma das 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026. Há mais de dez anos, Antonio atua conectando turismo, cultura negra, diáspora africana e desenvolvimento de territórios. Seu trabalho passa pela formação de profissionais, criação de experiências e apoio a empreendedores, além da construção de diálogo com destinos e instituições. Esse percurso ajudou a ampliar a discussão sobre afroturismo no Brasil e a abrir espaço para novas perspectivas dentro do setor. Nesta entrevista, Antonio fala sobre o significado desse reconhecimento internacional, os caminhos percorridos até aqui e os desafios para fortalecer a conexão do Brasil com os territórios e experiências da diáspora africana. DIASPORA.BLACK: Antonio, o que significa para você estar entre as 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026? ANTONIO PITA: " Fico muito feliz. É um reconhecimento importante, mas que não diz respeito a uma pessoa só. Ele reflete uma construção de mais de 10 anos para estabelecer e demarcar esse segmento no Brasil. Não por acaso, ainda há poucas pessoas brasileiras nessa lista. Até pouco tempo, a conexão entre turismo preto e diáspora africana era praticamente ignorada pelo mercado brasileiro, ou vista sem essa dimensão de mercado e potência internacional. Esse é um trabalho construído pela Diaspora.Black, por mim e por muitas organizações e pessoas que vêm abrindo caminho coletivamente. Lá atrás, o que a gente esperava era justamente isso: criar essa abertura para o mercado internacional e fazer com que o Brasil também fosse reconhecido nesse lugar." DIASPORA.BLACK: O que foi fundamental para chegar aqui? ANTONIO PITA: "Acho que foi fundamental construir um histórico de entregas em diferentes frentes. Desde o começo, a gente provocou a indústria do turismo a olhar para a falta de diversidade, promovendo treinamentos, certificações e trazendo conhecimento para qualificar a hospitalidade. Depois, passamos a olhar também para os destinos, entendendo como eles incorporam os atrativos do afroturismo e as experiências da cultura negra em suas estratégias de promoção e desenvolvimento. Isso fortalece a articulação que a gente vem construindo para o segmento como um todo. Mas talvez o mais importante seja o trabalho com os empreendedores. Conhecer as experiências, os roteiros e os produtos criados por cada um, entender como podem evoluir, ganhar escala e despertar mais interesse tanto dos visitantes quanto dos próprios moradores das cidades. É isso que fazemos com o Laboratório Criativo de Roteiros: articular essa rede de empreendedores e operadores para atuar no afroturismo. Existe um diálogo constante com o poder público, com o mercado, com as agências e com os territórios, sempre buscando entender quais experiências podem ser conectadas nessa cadeia para fortalecer o ecossistema como um todo." DIASPORA.BLACK: A curadoria de grupos internacionais, como o trabalho que fazemos com fundações e outras organizações, teve influência nesse reconhecimento? ANTONIO PITA: "Com certeza. Esse reconhecimento dialoga muito com esse trabalho de curadoria que a gente vem desenvolvendo: construir experiências culturais, roteiros e conexões com os territórios, além da forma como recebemos esses visitantes com qualidade e com impacto real para quem está nos territórios. É esse olhar que levamos para parceiros, organizações e fundações, no sentido de fazer uma mediação cultural. Receber esses grupos passa por entender o que eles desejam conhecer e construir experiências em diálogo com os territórios e com respeito às dinâmicas locais. Essa atuação também fortalece nosso entendimento sobre o que o público estrangeiro e o público da diáspora buscam vivenciar no Brasil. E acho que é justamente essa capacidade de conectar experiência, cultura e território de forma responsável que esse prêmio também reconhece." DIASPORA.BLACK: Que mensagem essa lista deixa para o trade de turismo brasileiro? ANTONIO PITA: "Acho que essa lista também mostra que existem muitos outros nomes importantes do afroturismo brasileiro que poderiam estar nesse reconhecimento. Fiquei ainda mais feliz por esse reconhecimento também destacar o trabalho de pessoas fundamentais para o ecossistema, como Bia Moremi, da Brafrika Viagens, além de Anita Moreau e Martinique Lewis. É uma evidência de que ainda existe um espaço enorme para fortalecer a relação do Brasil com os outros países da diáspora africana e também para o próprio mercado brasileiro olhar para o afroturismo com mais proximidade, mais respeito e entendimento do potencial que esse segmento tem."

Em abril, a série “Raízes que Guiam: Como a Ancestralidade Transforma o Turismo” começou com uma pergunta: o que a hospitalidade ancestral africana ensina sobre a forma como recebemos as pessoas hoje? A matéria mostrou que muita coisa tratada como inovação no turismo já existia há séculos em comunidades africanas. Agora, o segundo encontro da série olha para outro elemento central dessa herança: a oralidade. O que muda quando uma história é contada por alguém que faz parte daquele território? Alguém que cresceu ouvindo aquelas memórias, reconhece os símbolos e entende os silêncios? Essa resposta começa com os griôs.

O que vivemos entre os dias 20 e 25 de março de 2026 foi uma jornada de reconexão e valorização de histórias e identidades. A Diaspora.Black desenvolveu e operou uma série de experiências culturais afro-brasileiras para viajantes internacionais em passagem pelo Brasil a bordo de um cruzeiro. Nesse intercâmbio entre as diásporas do Brasil e dos Estados Unidos, conduzimos 297 viajantes por percursos que revelam as narrativas negras que estruturam a história e a cultura dos nossos territórios.





