O turismo como ato político: o poder de recontar a história

Jaqueline Santos • November 26, 2025
Por Carlos Humberto, CEO da Diaspora.Black

Toda viagem é uma forma de narrativa. Quando escolhemos um destino, estamos escolhendo também qual história queremos ouvir e quais histórias continuaremos a silenciar. O turismo não é neutro. Ele molda imaginários, define o que é digno de ser lembrado e quem é digno de ser visto. No Brasil, país onde mais da metade da população se reconhece como negra, ainda é recente o reconhecimento de que nossas rotas turísticas também precisam falar sobre ancestralidade, resistência e identidade.

Cada roteiro afrocentrado é, antes de tudo, um gesto político. Ele devolve às comunidades negras o direito de narrar suas próprias histórias. O que antes era contado por olhares externos e distantes, hoje é vivido e compartilhado por quem pertence a esses territórios. As visitas a quilombos, terreiros, circuitos culturais e lugares de memória não são apenas experiências turísticas: são reencontros com a verdade, com a dignidade e com o pertencimento.

Os dados da pesquisa Mapeamento Nacional do Afroturismo, revelam um setor em crescimento e cheio de propósito. Metade das iniciativas mapeadas tem menos de cinco anos, reflexo de um movimento recente de profissionalização e engajamento identitário. Essas experiências estão presentes em todas as regiões do Brasil, com maior concentração no Sudeste (38%) e no Nordeste (28%), e com destaque para a Bahia, o Rio de Janeiro e São Paulo, onde o afroturismo se conecta à história viva de cada território.

O impacto é real. As experiências geram renda e emprego em 40% das comunidades participantes, fortalecem o orgulho da identidade negra e impulsionam economias locais baseadas na cultura, na gastronomia e na arte. Em um país onde o turismo convencional muitas vezes ignora as periferias, os quilombos e as comunidades tradicionais, o afroturismo faz o caminho inverso, ele leva o visitante a esses lugares, de forma respeitosa, educativa e transformadora.

Há, no entanto, um desafio que ultrapassa o econômico. O estudo aponta o racismo e a invisibilidade como as principais barreiras para o crescimento do setor. Faltam políticas públicas, campanhas de divulgação e reconhecimento institucional que enxerguem o afroturismo não como nicho, mas como estratégia de desenvolvimento sustentável e de afirmação de cidadania. O turismo, quando enxerga todas as suas vozes, tem poder de reparação.

O Brasil precisa compreender que recontar sua história também é tarefa econômica. Cada roteiro afro-brasileiro é uma lição de diversidade, cada visita a um território negro é uma aula de história que as escolas não contaram. O turismo pode e deve ser uma política de memória, um instrumento para reconstruir a autoestima coletiva e para mostrar ao mundo um país que não nega suas raízes africanas, mas as reconhece como fonte de riqueza e identidade.

O afroturismo não é sobre o passado, é sobre futuro. É sobre construir um Brasil que se reconhece em sua pluralidade e que transforma cultura em potência. Quando uma mulher negra conduz um grupo por um território ancestral, ela não está apenas guiando turistas. Está guiando o país em direção à sua própria verdade.

* Carlos Humberto Silva, nosso fundador e CEO da Diaspora.Black. Com mais de 22 anos de atuação nacional e internacional na promoção dos Direitos Humanos, é especialista em igualdade racial, políticas públicas e combate ao racismo. Foi bolsista da Fulbright e do Rockefeller Center for Latin American Studies, em Harvard, além da PUC-Rio, e tem trajetória reconhecida por liderar projetos de impacto social em organizações como Fundação Roberto Marinho e Fundação Vale. Pesquisador nas áreas de territorialidade negra, desigualdades socioespaciais e cultura afro-brasileira, é conselheiro do Prêmio Empreendedor Social da Folha de S.Paulo e já ministrou palestras em instituições como Harvard University, UNAM, Universidad Nacional de La Plata e diversas universidades brasileiras.The body content of your post goes here. To edit this text, click on it and delete this default text and start typing your own or paste your own from a different source.

Imagem do Tour Pequena África 7/05/25

Esse é um trecho do Tour que realizamos em parceria com a Etnias Turismo e Cultura.

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