Por que as mulheres lideram o Afroturismo?
Jaqueline Santos • March 25, 2026
O turismo é um dos setores que mais emprega mulheres no mundo. Segundo a Organização Mundial do Turismo (UNWTO), elas representam cerca de 54% da força de trabalho global. Ainda assim, essa presença é marcada por desigualdades. A base da pirâmide é feminina, enquanto os cargos de liderança seguem majoritariamente ocupados por homens, com uma diferença salarial média de 14,7%.
Falar de protagonismo exige reconhecer os desafios.
Mulheres negras ocupam um lugar onde racismo e sexismo se cruzam. Isso impacta diretamente o acesso a crédito, redes de contato, formação e espaços de decisão. No turismo tradicional, essa desigualdade aparece na baixa presença em cargos executivos de grandes operadoras, redes hoteleiras e companhias aéreas.
Ao mesmo tempo, essas mulheres sempre estiveram nos territórios, sustentando práticas, organizando vivências e preservando memórias.
Conquistas que apontam um novo caminho
Existe também um alto nível de qualificação. 47% dessas lideranças possuem pós-graduação, combinando formação acadêmica com saberes ancestrais e territoriais.
Outro dado revela a força desse movimento. 51% das iniciativas têm até cinco anos de existência. Isso indica um setor vivo, em expansão e impulsionado por uma nova geração de empreendedoras.
Quando olhamos para o empreendedorismo no setor, as mulheres estão à frente de 57% dos negócios, segundo o IBGE. E as mulheres negras são as protagonistas do Afroturismo no Brasil.
Desafios que revelam estruturas
Falar de protagonismo exige reconhecer os desafios.
Mulheres negras ocupam um lugar onde racismo e sexismo se cruzam. Isso impacta diretamente o acesso a crédito, redes de contato, formação e espaços de decisão. No turismo tradicional, essa desigualdade aparece na baixa presença em cargos executivos de grandes operadoras, redes hoteleiras e companhias aéreas.
Ao mesmo tempo, essas mulheres sempre estiveram nos territórios, sustentando práticas, organizando vivências e preservando memórias.
Conquistas que apontam um novo caminho
O crescimento do Afroturismo no Brasil evidencia uma virada importante.
O Mapeamento Nacional do Afroturismo, realizado pela Diaspora.Black em parceria com a Embratur e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), mostra que 66,7% das iniciativas do setor são fundadas ou lideradas por mulheres negras.
Existe também um alto nível de qualificação. 47% dessas lideranças possuem pós-graduação, combinando formação acadêmica com saberes ancestrais e territoriais.
Outro dado revela a força desse movimento. 51% das iniciativas têm até cinco anos de existência. Isso indica um setor vivo, em expansão e impulsionado por uma nova geração de empreendedoras.
Por que a mulher negra lidera o Afroturismo?
Cada mulher negra carrega na sua trajetória resistências cotidianas e formas de existir que se traduzem diretamente no modo de fazer turismo.
Liderança que cuida e sustenta
Mulheres negras historicamente sustentam a vida nos territórios. São guardiãs de memórias e saberes.
No Afroturismo, isso se traduz em uma gestão que equilibra geração de renda com preservação cultural. Existe responsabilidade, escuta e continuidade.
Estratégia construída na vivência
Diante de mais barreiras, essas mulheres desenvolvem uma visão ampla do negócio.
Atuam em múltiplas frentes. Pensam estratégia, operam, comunicam, gerem e criam. Essa multifuncionalidade se torna um diferencial.
Ao mesmo tempo, constroem redes de apoio entre mulheres, fortalecendo cadeias produtivas e promovendo circulação de renda dentro das próprias comunidades.
Hospitalidade como experiência de afeto
A hospitalidade ganha outra dimensão.
Existe cuidado real com quem chega. Escuta, troca, presença. Comer junto, ouvir histórias, compartilhar vivências fazem parte da experiência.
Em um mundo em que o racismo ainda atravessa o ato de viajar, criar espaços seguros e acolhedores é essencial.
Empreendedorismo com impacto coletivo
Existe um compromisso que vai além do lucro.
Muitas dessas lideranças priorizam o fortalecimento da comunidade, a redistribuição de renda e a sustentabilidade cultural. O crescimento do negócio caminha junto com o desenvolvimento do território.
O impacto é econômico, mas também social e simbólico.
Afroturismo como continuidade de vida
Para muitas mulheres negras, o Afroturismo não é apenas um trabalho.
É continuidade de história, de identidade e de propósito.
As experiências carregam vivências pessoais, memórias coletivas e práticas profissionais. Essa conexão cria algo difícil de ser replicado por qualquer pessoa.
Um novo paradigma no turismo
No Afroturismo mulheres negras criam novos caminhos. E apontam para um futuro onde viajar também é reconhecer, respeitar e se reconectar com histórias que sempre estiveram presentes.
Neste Mês da Mulher, nada mais potente do que viver essas experiências a partir de quem as protagoniza. Conheça narrativas de mulheres negras que revelam outras camadas dos destinos e carregam legados de liderança, resistência e construção de território.

Na Feira Preta Festival Celebra Viva Pequena África, a Diaspora.Black , em parceria com o BNDES, promoveu dois roteiros novos pela Pequena África: Instituto Pretos Novos e Casarão Cultural João de Alabá. A Pequena África é um reconhecimento do legado africano e afrodescendente na formação do Rio de Janeiro. Quem caminha por esse território encontra múltiplas camadas de memória que podem ser vividas de formas completamente diferentes e, durante o festival, conduzimos os participantes por dois desses caminhos: o da história e da arqueologia, com o Instituto Pretos Novos , e o da espiritualidade e da tradição religiosa, com o Casarão Cultural João de Alabá .

A Diaspora.Black esteve no Web Summit Rio 2026, dentro da Startup Island do estande brasileiro, a convite da EmbraturLAB em parceria com o Itaipu Parquetec. A iniciativa reuniu 24 startups selecionadas para apresentar soluções em inteligência artificial, turismo inteligente, sustentabilidade e economia criativa, reforçando o posicionamento do Brasil como um polo de inovação aplicada ao turismo. Nossa participação marcou a presença de uma startup com dez anos de atuação, com soluções estruturadas para empresas que querem incorporar o afroturismo à sua oferta de valor.

Todo mês de agosto, Cachoeira desacelera. Quem chega à cidade nesse período entende o motivo. A cidade do Recôncavo Baiano, com seus casarões coloniais e ladeiras de pedra, se torna cenário de uma das celebrações mais importantes da cultura afro-brasileira. A Festa da Boa Morte não cabe em nenhuma categoria comum de viagem corporativa. Ela convida a participar de uma história construída e preservada por mulheres negras há mais de dois séculos.

O Brasil acaba de ganhar mais um reconhecimento no cenário global do afroturismo. Nosso cofundador e diretor de operações, Antonio Pita, foi reconhecido pela organização Most Influential People of African Descent (MIPAD) como uma das 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026. Há mais de dez anos, Antonio atua conectando turismo, cultura negra, diáspora africana e desenvolvimento de territórios. Seu trabalho passa pela formação de profissionais, criação de experiências e apoio a empreendedores, além da construção de diálogo com destinos e instituições. Esse percurso ajudou a ampliar a discussão sobre afroturismo no Brasil e a abrir espaço para novas perspectivas dentro do setor. Nesta entrevista, Antonio fala sobre o significado desse reconhecimento internacional, os caminhos percorridos até aqui e os desafios para fortalecer a conexão do Brasil com os territórios e experiências da diáspora africana. DIASPORA.BLACK: Antonio, o que significa para você estar entre as 100 pessoas negras mais influentes do mundo em viagens, turismo e hotelaria em 2026? ANTONIO PITA: " Fico muito feliz. É um reconhecimento importante, mas que não diz respeito a uma pessoa só. Ele reflete uma construção de mais de 10 anos para estabelecer e demarcar esse segmento no Brasil. Não por acaso, ainda há poucas pessoas brasileiras nessa lista. Até pouco tempo, a conexão entre turismo preto e diáspora africana era praticamente ignorada pelo mercado brasileiro, ou vista sem essa dimensão de mercado e potência internacional. Esse é um trabalho construído pela Diaspora.Black, por mim e por muitas organizações e pessoas que vêm abrindo caminho coletivamente. Lá atrás, o que a gente esperava era justamente isso: criar essa abertura para o mercado internacional e fazer com que o Brasil também fosse reconhecido nesse lugar." DIASPORA.BLACK: O que foi fundamental para chegar aqui? ANTONIO PITA: "Acho que foi fundamental construir um histórico de entregas em diferentes frentes. Desde o começo, a gente provocou a indústria do turismo a olhar para a falta de diversidade, promovendo treinamentos, certificações e trazendo conhecimento para qualificar a hospitalidade. Depois, passamos a olhar também para os destinos, entendendo como eles incorporam os atrativos do afroturismo e as experiências da cultura negra em suas estratégias de promoção e desenvolvimento. Isso fortalece a articulação que a gente vem construindo para o segmento como um todo. Mas talvez o mais importante seja o trabalho com os empreendedores. Conhecer as experiências, os roteiros e os produtos criados por cada um, entender como podem evoluir, ganhar escala e despertar mais interesse tanto dos visitantes quanto dos próprios moradores das cidades. É isso que fazemos com o Laboratório Criativo de Roteiros: articular essa rede de empreendedores e operadores para atuar no afroturismo. Existe um diálogo constante com o poder público, com o mercado, com as agências e com os territórios, sempre buscando entender quais experiências podem ser conectadas nessa cadeia para fortalecer o ecossistema como um todo." DIASPORA.BLACK: A curadoria de grupos internacionais, como o trabalho que fazemos com fundações e outras organizações, teve influência nesse reconhecimento? ANTONIO PITA: "Com certeza. Esse reconhecimento dialoga muito com esse trabalho de curadoria que a gente vem desenvolvendo: construir experiências culturais, roteiros e conexões com os territórios, além da forma como recebemos esses visitantes com qualidade e com impacto real para quem está nos territórios. É esse olhar que levamos para parceiros, organizações e fundações, no sentido de fazer uma mediação cultural. Receber esses grupos passa por entender o que eles desejam conhecer e construir experiências em diálogo com os territórios e com respeito às dinâmicas locais. Essa atuação também fortalece nosso entendimento sobre o que o público estrangeiro e o público da diáspora buscam vivenciar no Brasil. E acho que é justamente essa capacidade de conectar experiência, cultura e território de forma responsável que esse prêmio também reconhece." DIASPORA.BLACK: Que mensagem essa lista deixa para o trade de turismo brasileiro? ANTONIO PITA: "Acho que essa lista também mostra que existem muitos outros nomes importantes do afroturismo brasileiro que poderiam estar nesse reconhecimento. Fiquei ainda mais feliz por esse reconhecimento também destacar o trabalho de pessoas fundamentais para o ecossistema, como Bia Moremi, da Brafrika Viagens, além de Anita Moreau e Martinique Lewis. É uma evidência de que ainda existe um espaço enorme para fortalecer a relação do Brasil com os outros países da diáspora africana e também para o próprio mercado brasileiro olhar para o afroturismo com mais proximidade, mais respeito e entendimento do potencial que esse segmento tem."

Em abril, a série “Raízes que Guiam: Como a Ancestralidade Transforma o Turismo” começou com uma pergunta: o que a hospitalidade ancestral africana ensina sobre a forma como recebemos as pessoas hoje? A matéria mostrou que muita coisa tratada como inovação no turismo já existia há séculos em comunidades africanas. Agora, o segundo encontro da série olha para outro elemento central dessa herança: a oralidade. O que muda quando uma história é contada por alguém que faz parte daquele território? Alguém que cresceu ouvindo aquelas memórias, reconhece os símbolos e entende os silêncios? Essa resposta começa com os griôs.

O que vivemos entre os dias 20 e 25 de março de 2026 foi uma jornada de reconexão e valorização de histórias e identidades. A Diaspora.Black desenvolveu e operou uma série de experiências culturais afro-brasileiras para viajantes internacionais em passagem pelo Brasil a bordo de um cruzeiro. Nesse intercâmbio entre as diásporas do Brasil e dos Estados Unidos, conduzimos 297 viajantes por percursos que revelam as narrativas negras que estruturam a história e a cultura dos nossos territórios.





