Um encontro com Carolina Maria de Jesus no extremo sul de São Paulo

Jaqueline Santos • September 17, 2026

A história de Carolina Maria de Jesus também passa pelo extremo sul de São Paulo. Em Parelheiros, onde a escritora viveu com a família, sua memória segue presente no território e nas lembranças de quem conviveu com ela.


Nesta entrevista, Lucimeire Juventino, idealizadora do Rancho Ateliê, conta como essa história deu origem a um percurso de afroturismo que conecta o legado de Carolina às mulheres, aos negócios locais e aos modos de vida da região.

DIASPORA.BLACK: Como o Rancho Ateliê chegou à história de Carolina Maria de Jesus? O que despertou em vocês a vontade de transformar essa pesquisa em uma experiência vivida em Parelheiros?


LUCIMEIRE JUVENTINO: Além de me inspirar como mulher negra periférica, Carolina Maria de Jesus sempre esteve em meus projetos pedagógicos; conheci Carolina na adolescência, lendo um livro que tínhamos em casa.

Ao longo dos anos, e após o lançamento de uma série de reportagens idealizada por mim, onde, em dez episódios, entrevistamos e contamos a história de mulheres que cavaram alicerces de lutas no extremo sul de São Paulo, a série “Matriarcas” (Periferia em Movimento), Carolina era uma delas. A pandemia da COVID-19 fez com que parássemos as gravações. O mapeamento e as interseções historiográficas me fizeram encontrar Carolina novamente, e de novo, e tantas vezes nos depoimentos de moradoras, porque algumas de nossas matriarcas conheceram Carolina.

Sempre tive uma grande inquietação com o fato de uma escritora tão importante para a literatura brasileira ter morado em Parelheiros com a família e nada se falava; também não há biografias que consideram esse tempo como vivido. O que consta na história oficial é sobre uma Carolina que veio passar seus últimos dias em Parelheiros, e o fato sempre repercutiu como um “mero detalhe biográfico”. Eu conhecia o sítio, convivi com a filha dela Vera Eunice de Jesus e passava em frente ao sítio tantas vezes, e a presença de Carolina no território não somente povoava a minha existência, mas é viva na memória coletiva de muitos moradores da comunidade.

Carolina Maria de Jesus, mesmo sendo uma literata, que teve o seu primeiro livro traduzido em diversas línguas e vendido em mais de 40 países, sofreu e ainda sofre tentativas constantes de apagamento.

Participamos do movimento e manifesto “Carolina na Sala de Visitas”, onde a mobilização coletiva se fez necessária para que a escultura que homenageia a escritora fosse instalada na praça central de Parelheiros; “a sala de visitas”, e não num parque afastado, como era destinada por órgãos competentes, longe da vivência da escritora no território. Durante as tratativas e mobilizações, notamos que muitos moradores ainda não conheciam a escritora Carolina Maria de Jesus ou a real dimensão de sua obra para a literatura mundial. Uma das autoras brasileiras mais traduzidas e lidas da história ter vivido no território é um marco que redefine a própria identidade local. Para além de garantir a escultura na praça central, percebemos a urgência de uma ação educativa e cultural contínua, era preciso apresentar Carolina a Parelheiros e a Carolina de Parelheiros para o Brasil e o mundo.

Foi o estopim para a existência de um estudo intencional que visa contribuir com pesquisas de resistência e luta que desafiam as narrativas hegemônicas da história. Além disso, valoriza e explora as memórias coletivas de uma comunidade marginalizada, proporcionando uma perspectiva crítica e emancipadora sobre as experiências e o legado de Carolina Maria de Jesus em Parelheiros.

O Rancho Ateliê surge como um quintal que tem um olhar para a ancestralidade, um quintal que conta histórias, atua em rede com a comunidade, valorizando a diversidade local e encontramos no percurso uma forma de apresentar uma história que não foi contada, gerar emprego, renda e pertencimento.

DIASPORA.BLACK: Muitas pessoas chegam a Parelheiros sem conhecer a região, o que costuma mudar no olhar dos visitantes sobre São Paulo depois do passeio?


LUCIMEIRE JUVENTINO: A natureza do Polo de Ecoturismo de São Paulo é deslumbrante, o viajante vivencia o patrimônio material e imaterial e descobre que a cidade de São Paulo abriga cachoeiras, ar puro, trilhas ecológicas, agricultura sem veneno, tekoas (aldeias) indígenas, memória quilombola e influência de personalidades como Carolina Maria de Jesus.

A experiência subverte a lógica do imaginário, ela quebra o estereótipo do território de faltas, não que não tenhamos nossas carências, precisamos e para ontem de políticas públicas, mas o visitante encontra potência, encontra nossas Carolinas, lideranças, conhece o nosso artesanato, produtos de agricultura familiar, senta com a gente para tomar um café, come comida caseira preparada com afeto no fogão a lenha e se depara com uma São Paulo verde, uma periferia urbano rural como eu gosto de mencionar. Ainda existe muito a ideia de que quando não há prédios no horizonte a cidade termina, se somos natureza é aqui que tem início a cidade.

DIASPORA.BLACK: O tour recebe visitantes, grupos de empresas e escolas. Como você adapta a condução do percurso para cada público? E o que a vivência em Parelheiros pode despertar, especialmente nos estudantes?


LUCIMEIRE JUVENTINO: A experiência que oferecemos precisa dialogar com a bagagem de quem chega, para estudantes há o impacto de vivenciar o território educador, converte a lei Federal nº 10.639/2003 (atualizada pela Lei nº 11.645/2008), que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em todo o currículo escolar em prática pedagógica, é uma aula a céu aberto, os estudantes vivenciam Parelheiros como um território de aquilombamento contemporâneo. O passeio conecta os passos dos estudantes à trajetória de Carolina Maria de Jesus e transforma a literatura em experiência vivida.

Para as empresas a caminhada é uma prática de Letramento racial e ESG, propõe que questionem suas próprias estruturas. Ao conhecerem a história de Carolina Maria de Jesus, uma das maiores pensadoras do país e sua trajetória em Parelheiros, o percurso desafia os colaboradores a repensarem o racismo estrutural, a diversidade e a equidade dentro de suas instituições, conectando o legado da autora à urgência de construir ambientes mais inclusivos e conscientes.

E para quem visita, valoriza a memória social, o patrimônio imaterial e a soberania narrativa do extremo sul da cidade. A vivência articula a literatura de Carolina com os modos de vida locais, a agroecologia e a historiografia negra do território.

DIASPORA.BLACK: Você conduz o percurso a partir de uma pesquisa profunda sobre a vida de Carolina Maria de Jesus. Existe alguma história, descoberta ou detalhe que você costuma compartilhar durante a caminhada e que surpreende os visitantes?


LUCIMEIRE JUVENTINO: Todo o percurso tem sido surpreendente, sobretudo porque o viajante descobre “Santa Cruz”, o território antes do chamado “Parelheiros”. Há conexão com a historicidade afro-ameríndia, refletindo o período oitocentista. Carolina muda-se para a região ainda na década de 60 e aí já existe uma primeira descoberta, a filha Vera Eunice afirma que a família muda- se para Parelheiros em 1964, diferente do que aparece em muitos escritos. A chegada no sítio é outra surpresa, ver a casa e o bar ainda de pé. É no sítio da escritora que temos um dos primeiros movimentos de Sarau da zona Sul da cidade, onde havia encontros de violeiros e cantorias, e o seu comércio também servia de ponto de acolhimento, de refúgio para os trabalhadores e trabalhadoras dos fornos de carvão e olarias da época. Na experiência contamos detalhes do pacto cotidiano de Carolina com esses trabalhadores e trabalhadoras. Parelheiros conheceu a Carolina escritora, agricultora, a Carolina Cambinda! E é essa Carolina que caminha com os viajantes.

DIASPORA.BLACK: O percurso passa pelo Empório da Marlene e pelo Sítio Jussara, da Alice. Na prática, o que a presença dos grupos, inclusive de empresas, representa para essas mulheres e para os negócios locais de Parelheiros?


LUCIMEIRE JUVENTINO: O percurso integrado em rede nos permite conectar diferentes pontos de preservação e memória do território, é uma teia e cada parada tem seu sentido pedagógico na narrativa da experiência. A força da experiência reside também na costura entre a memória de Carolina Maria de Jesus e as Carolinas contemporâneas que sustentam Parelheiros. Nossa proposta é que os visitantes também encontrem as Carolinas da atualidade, conhecendo a história e o Restaurante e Empório da Marlene (uma de nossas matriarcas) e almoçando no Sítio Jussara, da agricultora Alice, que guarda a palmeira-juçara ou em outro quintal de matriarca. Nos quintais onde oferecemos almoço, o visitante encontra com lideranças e apreciam produtos e o artesanato local. Nas cozinhas existe o uso de insumos orgânicos locais, o que gera demanda direta para a agricultura familiar do território. Isso garante que a renda do turismo circule de mão em mão pela comunidade.

A presença de grupos e de empresas representa autonomia financeira, ativa uma economia circular em que a renda não vaza para intermediários, mas gira diretamente nas mãos dessas mulheres e dos negócios locais, quem preserva deve ter direito a renda e dignidade. E mais que isso, a presença de grupos e empresas contribui com a justiça climática, ajuda a combater a especulação imobiliária incentivando soberania alimentar e a produção nos quintais.

Sobre Lucimeire Juventino


Possui graduação em Pedagogia, é especialista em História e Cultura Afro-brasileira, com sólida experiência na área da Educação no serviço público da cidade de São Paulo. É guia de Turismo e dedica-se à pesquisa no campo de ciências Humanas e Sociais, memória, direitos humanos e educação para as relações étnico-raciais, investigando as interseções entre a trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus e o território de Parelheiros sob perspectivas interseccionais e decoloniais. É idealizadora, gestora e pesquisadora no Rancho Ateliê, quintal eco cultural que atua em rede na comunidade, fomentando o turismo de base comunitária, desenho de trilhas pedagógicas e percursos de afroturismo no Polo de Ecoturismo de São Paulo.

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