O que o turismo tradicional não vê em Ilhabela

Jaqueline Santos • February 2, 2026
Ilhabela é amplamente reconhecida por sua natureza exuberante. Mas o território guarda também uma história profunda, marcada pela presença negra que moldou saberes, práticas culturais e modos de vida que seguem pulsando no cotidiano da ilha. Ainda pouco visibilizada nas narrativas oficiais do turismo, essa dimensão permanece viva na memória, na cultura e nas relações que sustentam a comunidade local.

O Afrocaiçara surge como linguagem, estratégia e reconhecimento dessa identidade em movimento. Uma construção que conecta ancestralidade, pertencimento e desenvolvimento, organizando saberes locais como potência econômica, cultural e simbólica. Para aprofundar essa conversa, a Diaspora.Black falou com Aziz Camali Constantino, idealizador do Oxigênio Ilhabela:

DIASPORA.BLACK: Como surgiu a experiência Afrocaiçara e de que forma ela fortalece o afroempreendedorismo de Ilhabela?

AZIZ CAMALI: "A experiência Afrocaiçara nasce do encontro entre duas identidades que sempre estiveram presentes em Ilhabela, mas raramente foram reconhecidas de forma integrada: a afro e a caiçara. O termo surge de maneira orgânica, a partir de um parceiro do território, o DJ Kost, durante um momento simbólico no palco do TEDx Ilhabela, quando artistas locais de trajetórias distintas criaram juntos pela primeira vez. Ali ficou evidente a existência de uma identidade viva, potente e ainda pouco nomeada, que precisava ganhar linguagem, visibilidade e estratégia.

A partir desse reconhecimento, o Oxigênio Ilhabela passa a olhar o Afrocaiçara não apenas como memória cultural, mas como uma potência econômica estruturante. O fortalecimento do afroempreendedorismo acontece quando saberes locais, como gastronomia, artesanato, música, arte e práticas culturais, deixam de operar de forma isolada e passam a ser organizados coletivamente, com curadoria, educação empreendedora e articulação com parceiros estratégicos. Isso permite a criação de experiências e serviços com valor real, capazes de gerar renda recorrente e fortalecer quem vive e empreende no arquipélago."

DIASPORA.BLACK: Como essa experiência ajuda moradores da ilha e turistas a se reconhecerem nessa parte viva da história, e não apenas no cenário turístico?

AZIZ CAMALI: "Para os moradores, a experiência Afrocaiçara devolve visibilidade, dignidade e protagonismo. Ilhabela foi um dos territórios com maior concentração de pessoas escravizadas do Brasil, inclusive com registros de práticas ilegais mesmo após a Lei Áurea. Essa história, no entanto, nunca foi plenamente integrada à narrativa oficial do turismo local. O projeto cria espaço para que essa memória deixe de ser invisível e passe a ser reconhecida como patrimônio vivo, contemporâneo e produtivo.

Para quem visita a ilha, a experiência amplia o olhar sobre o território. Ilhabela é amplamente associada à Mata Atlântica e ao oceano, o que é uma potência indiscutível, mas incompleta. O Afrocaiçara convida o visitante a se relacionar com as pessoas do arquipélago, seus saberes, histórias e modos de vida. O turismo deixa de ser apenas contemplativo e passa a ser relacional, gerando vínculos, aprendizado e pertencimento, tanto para quem chega quanto para quem permanece."

DIASPORA.BLACK: Que barreiras ainda existem para ampliar a presença de vozes negras nos grandes eventos e debates do setor de turismo?

AZIZ CAMALI: "As principais barreiras são culturais e de letramento. Ainda existe a percepção de que o afroturismo é um nicho restrito ou um produto voltado apenas para públicos específicos. Isso ignora o fato de que a formação cultural, social e econômica do Brasil é profundamente atravessada pelas matrizes africanas.

Além disso, há uma concentração das narrativas nos grandes centros urbanos, enquanto territórios como Ilhabela, mesmo com enorme relevância histórica, seguem fora do radar dos grandes debates. O Afrocaiçara propõe justamente deslocar esse centro, mostrando que pequenos municípios e territórios periféricos também são espaços de inovação, vanguarda cultural e produção de conhecimento com valor econômico e simbólico."

DIASPORA.BLACK: Que conselho você daria para uma agência que quer atuar no afroturismo com responsabilidade, estratégia e diferenciação?

AZIZ CAMALI: "O principal conselho é construir a partir do território e em parceria com lideranças locais. Afroturismo responsável não se desenvolve de fora para dentro. Ele exige escuta, corresponsabilidade e compromisso com a economia local. O papel do Oxigênio Ilhabela é atuar como articulador territorial, e não como intermediário comercial, garantindo que o valor gerado permaneça na comunidade.

Parcerias como a construída com a Diáspora Black são estratégicas porque permitem planejar experiências com antecedência, conectadas a marcos culturais reais da cidade, como a Congada e a Semana de Vela, que já têm programações em desenvolvimento. Esse tipo de articulação oferece um diferencial concreto para agências nacionais e internacionais interessadas em experiências autênticas, regenerativas e alinhadas a viajantes e empresas que valorizam impacto positivo. Não se trata de volume, mas de curadoria, profundidade e criação de valor compartilhado."


Sobre Aziz Camali Constantino 

Aziz Camali Constantino atua na interseção entre territórios, organizações e comunidades, articulando inovação, impacto social e pertencimento como estratégia de desenvolvimento. Residente em Ilhabela há cinco anos, dedica-se ao fortalecimento de ecossistemas locais, inovação aberta territorial e educação empreendedora orientada à regeneração social, econômica e cultural. É cofundador do desNegocio e idealizador do TEDx Ilhabela, iniciativa criada para valorizar o território e ativar novas ambições coletivas.

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